O Mundo dos Sentidos

Respire!

Novembro 11, 2009 · Deixe um comentário

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O ato de respirar é essencial para o transporte de oxigênio e nutrientes em todo o corpo, sendo isso feito pela corrente sanguínea. O que garante a estimulação elétrica das células corporais e o adequado funcionamento do organismo. Mais, respirar também atua no controle do fluxo do fluido linfático que contém os glóbulos brancos do sangue que protegem o corpo.

Assim, respirar contribui para uma corrente sangüínea saudável e sistemas linfático e imunológico eficientes. Condições de saúde que fortalecem mente e corpo. É por isso que uma má respiração pode estar associada à tensão muscular, stress, ansiedade e mesmo depressão. Todos nascemos sabendo respirar adequadamente, então porque desaprendemos a fazê-lo?

A respiração reflete, em grande parte, nossas emoções, podendo ser influenciada consciente ou inconscientemente por elas. Sentir-se inseguro ou reprimido altera negativamente a forma de respirar e a postura corporal. Em situações de excitação respiramos mais rápido, sob o medo a respiração pode tornar-se insuficiente. Em ambos os casos, ocorre tensão muscular.

Um corpo tenso respira mal e potencializa as sensações desagradáveis. É importante ficar atento às alterações físicas e emocionais que geram sofrimento. O ato de respirar pode ser uma ferramenta muito útil na busca do bem-estar físico e mental. Quem respira mais e melhor, ajuda a criar um ciclo virtuoso que oxigena as células do corpo e nutre as emoções positivas.

Escrito originalmente para o Caderno Espaço Vida/Unimed-RS, em Outubro de 2009

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O Beijo, os Sentidos, o Cérebro e o Amor Eterno

Setembro 23, 2009 · 2 Comentários

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O beijo nos parece uma forma de carinho corriqueira e universal. Ele aproxima pessoas estranhas, exprime o afeto de familiares, personifica identidades culturais, estabelece o destino de um comparsa no crime organizado… Pela diversidade dos usos atribuídos ao beijo, tendemos a vê-lo como parte natural da vida de todos os seres humanos, em todos os tempos. Mas, afinal, numa perspectiva objetiva, qual seria a função do beijo em nossas vidas?…

…Ao que parece, segundo asseguram alguns cientistas, o beijo define a qualidade dos econtros erótico-afetivos. Mas não só isso! O beijo parece ser um alimento para o afeto, um sinalizador do quanto ele pode nutrir uma relação a dois. A origem para esse poder afetivo do beijo estaria no próprio ato de alimentar o corpo.

Segundo o antropólogo inglês Desmond Morris, o beijo teria se originado na relação mãe-filho. Para Morris, o processo de adaptação da criança à alimentação sólida – após o período de amamentação – seria auxiliado pela mãe., que depois de mastigar o alimento que seria dado ao filho, o alimentaria passando a comida da sua boca para a boca da criança. Essa forma de alimentar os filhotes pode ser visto em outros animais como lobos e pássaros. A favor de Morris tem o fato de que muitas tribos, em várias partes do mundo, apresentam, hoje, o costume das mães alimentarem seus filhos pequenos no modelo boca-a-boca.

Do ponto de vista psicológico, esse contato das bocas – mãe/filho – associado à alimentação produziria a mesma sensação de conforto, segurança, prazer e satisfação que a criança obtém ao sugar o seio materno. Ou seja, talvez por isso, o ato de beijar na boca nos parece uma confirmação de intimidade entre duas pessoas, uma forma de nos certificarmos se somos aceitos ou não, desejados ou não. Similarmente, se desejamos ou não o outro a quem beijamos.

Ao beijarmos alguém, nossos sentidos são inundados por várias informações fisiológicas que sinalizam para o nosso cérebro o quanto desejamos alguém. Temperatura, textura, pressão, cheiro, gosto, sons, posicionamento do corpo no espaço…de diferentes maneiras, um simples beijo aciona mecanismos neurológicos sofisticados, sejam estes conscientes ou inconscientes. Tais mecanismos permitem ao nosso cérebro avaliar as informações sensoriais desencadeadas pelo contato com o parceiro(a), o que influenciará nossa percepção subjetiva do quanto aquele (a) que beijamos é compatível geneticamente conosco.

A bagagem genética por trás do beijo definirá o sucesso de um econtro, e mesmo o de uma relação, é o que indica  resultados de experimentos científicos recentes. Um beijo aciona células da língua e de outras regiões da boca, cujas mensagens enviadas ao cérebro e ao corpo provocam emoções e reações físicas intensas. Isso ocorre porque os lábios humanos possuem a camada mais fina de pele do corpo, sendo também uma das áreas corporais com maiores concentrações de receptores e transmissores de informações fornecidas pelos sentidos. Quase 50% dos nervos cranianos envolvidos na função cerebral são ativados quando beijamos. Parcela significativa da informação sensorial transmitida por esses nervos chega ao córtex somatossensorial – área da superfície cerebral responsável pela leitura das informações vindas do corpo.

O corpo envolvido na ação de beijar desencadeia a regulação de um coquetel de substâncias químicas como o cortisol (associado ao stress) e a oxitocina (associada às relações sociais e à estimulação sexual). Alguns experimentos, por exemplo, mostraram que os níveis de oxitocina aumentam no organismo masculino depois de beijar. Ao contrário, o beijo faz cair os níveis de cortisol para ambos os sexos, indicando que o beijo pode reduzir o stress. Uma explicação para isso seria o fato de que o beijo está, evolutivamente e psicologicamente, ligado à afetividade. Assim, beijar aumenta a produção de neurotransmissores envolvidos nas sensações de prazer e euforia, e na motivação para a criação de vínculos.

O poder do beijo de gerar prazer e euforia foi demonstrado pela antropóloga Helen Fisher, que se dedica ao estudo dos efeitos da paixão e do amor no cérebro humano. Por meio de tomografia, Fisher e seus colaboradores identificaram uma atividade incomum em duas regiões cerebrais de voluntários, enquanto eles observavam fotos daqueles por quem estavam apaixonados. As regiões do cérebro, em questão, são a àrea tegumentar ventral direita e o núcleo caudado direito, que estão associadas ao prazer, à motivação e à recompensa. Drogas como a cocaína também ativam essas áreas, promovendo a liberação do neurotransmissor dopamina.

Logo, poderíamos pensar na paixão como uma espécie de droga que gera prazer e euforia. O beijo, como expressão primária da paixão, seria responsável por desencadear, fisiológica e psicologicamente, o processo excitatório dessas regiões cerebrais. Fisiologicmente, o beijo aumenta a pulsação e a pressão sanguínea, dilata as pupilas e provoca um aprofundamento do ritmo respiratório. Essas reações favorecem o deslocamento do foco de pensamento das reações racionais para as emocionais. Ou seja, psicologiamente, beijar minimiza as defesas emocionais que nos tornam mais cautelosos e inibidos. Quando nos entregamos num beijo, nos tornamos menos racionais e, por isso mesmo, mais suscetíveis aos encantos do outro.

O poder de encantamento de um beijo, ao contrário do que alguns possam pensar, não depende de técnicas mas da compatibilidade genética dos parceiros. Talvez, por isso, quem é bom beijador para uns pode não ser para outros. Do ponto de vista evolutivo, o beijo seria uma estratégia de acasalamento que ajuda a valiar um possível parceiro sexual e, quem sabe, futuro pai/mãe dos filhos que se pretende ter. O beijo, portanto, seria uma espécie de termômetro da relação, quanto mais entusiasmado o beijo, mais chances teria a relação de ser satisfatória. Tanto é que a àrea tegmentar ventral – aquela que “acende” quando sentimos prazer e que pode ser ativada quando beijamos – continua se destacando nas imagens do cérebro de casais que há muito estão juntos e satisfeitos com suas relações.

O segredo dessas relações de amor eterno poderia, segundo alguns cientistas, residir na qualidade do beijo percebida pelos parceiros. Se um beijo arrepia os pêlos do corpo, retira as amarras da inibição e destranca o cadeado do coração, é porque genes compatíveis entraram em ação. A compatibilidade genética de um casal parece ser determinada pela análise de genes chamados MHC que, a princípio, parecem influenciar o odor e a saliva. Esses genes controlam como o sistema de defesa do organismo reconhece e combate elementos nocivos como fungos e bactérias. Se esses genes forem muito parecidos nos parceiros, há incompatibilidade genética. Isso mesmo! Para garantir mais chances de sobrevivência dos filhotes gerados por um casal, a idéia é que haja diversidade nos genes MHC. Ou seja, quanto mais, e mais diversificados, forem os genes de defesa a serem passados para o hedeiro, mais chances ele tem de ser resistente à várias doenças.

A lógica da evolução é: quanto mais diferente geneticamente o casal, mais provável de os parceiros se reconhecerem como iguais!

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Pilobolus e a Criação de Imagens Pela Mente

Julho 28, 2009 · 2 Comentários

O maior problema que os pesquisadores da percepção visual encontram ao estudá-la diz respeito ao fato de que: aquilo que vemos não é uma mera tradução do estímulo sensorial detectado pela retina. A explicação da percepção visual constitui um desafio para os cientistas. Além de todo o aparato fisiológico e neurológico envolvidos no processo há, também, o próprio papel da visão na interação do organismo com o meio. A percepção por meio de imagens configura um ponto de contato entre o mundo físico e o mundo mental. Ou seja, a percepção de imagens funciona como uma interface, por meio da qual a mente interage com o meio, interpreta e confere significado ao que é material.

Os conhecimentos científicos sobre a percepção de imagens, produzidos até o presente momento, são capazes de explicar todo o percurso físico do estímulo luminoso – do globo ocular até o cérebro – mas não pode assegurar como tal estimulação resulta na formação de imagens. O fascinante é que a imagem se forma na mente, e até o momento não sabemos até que ponto o cérebro contém a mente – se é que a contém! Quando falamos em mente, é válido ressaltar que há diferentes formas de entender a mesma. Diferentes pesquisadores e teóricos (filósofos, psicólogos, neurocientistas, etc.) debatem e apresentam suas teorias sobre o que seria a mente. Muitos entendem que a mente é o próprio cérebro. Outros alegam que a mente é apenas uma abstração desenvolvida pelo cérebro para possibilitar uma melhor adaptação do organismo ao meio.

O fato é que a mente é a protagonista na formação de imagens, tanto é que somos capazes de “ver” com os olhos fechados. Nos sonhos, na imaginação, produzimos imagens. Há mesmo aqueles, cuja capacidade imaginativa é tão fértil, que são capazes de criar imagens que nunca foram vistas pelo olho humano, muito embora utilizem-se de refrências visuais conhecidas – como é o caso de alguns autores de ficção e literatura fantástica, e de pintores, em especial os surrealistas. O enigma da formação de imagens pela mente nos leva à conclusão de que a percepção visual é, em grande parte, determinada pela capacidade de uma pessoa em estabelecer relações entre os estímulos recebidos e o contexto no qual ele ocorre. Melhor dizendo, a experiência individual – aquilo que sabemos, conhecemos, sentimos, acreditamos, etc. – delineia as imagens que somos capazes de produzir em nossa mente.

A nossa visão, ou melhor, as imagens que são produzidas pela mente seriam uma forma de Inferência Inconsciente. Isso é o que alega Hermann von Helmholtz, frequentemente citado como o fundador do estudo científico da percepção visual. Para Helmholtz, a visão deriva de uma interpretação provável a partir de dados incompletos. Ou seja, os estímulos sensoriais detectados pelo sistema visual não contém todas as informações necessárias para a construção de imagens. É o repertório individual, a experiência de cada um, que organiza essas informações conferindo-lhes significado. Ao dar significado às informações, localizando-as e identificando-as, a mente produz a imagem correspondente.

É por isso que você consegue ver árvores, animais, casas, etc., no vídeo do comercial da Wolkswagen desenvolvido pelo Grupo de Dança Piloboulos que postei acima. As casas não estão lá, muito menos os animais e as árvores, mas, a partir do repertório visual que você já tem, sua mente procura referências nas quais os estímulos luminosos emitidos pelo vídeo possam ser encaixados e reconhecidos. Na visão de Helmholtz, os dados incompletos de linhas, relevos, depressões, luz, sombra e movimento capturados pelos seus olhos, são interpretados probabilisticamente. A sua mente busca entre as interpretações prováveis a que mais se adequaria ao conjunto dos estímulos visuais recebidos, e assim cria as imagens que você vê no vídeo.

A criação de imagens pela mente, e todo o aparato psicofisiológico envolvido nesse processo, é um ramo de estudos no qual a Psicologia foi pioneira, em especial com a Psicologia da Gestalt. A Gestalt aparece como um exemplo da aplicação da Fenomenologia na psicologia – a Fenomenologia pressupõe que todos os objetos são fenômenos, que aparecem para uma consciência. Sendo assim, não existe consciência pura nem objetos isolados em si. A Psicologia da Gestalt surgiu no início do século XX, na Alemanha. Um grupo de pesquisadores da área da psicologia da percepção – Ehrenfels, Koffka, Wertheimer e Köhler, entre outros – foram os responsáveis pela criação dessa escola psicológica.

O nome Gestalt resume a maneira como esses pesquisadores tratavam a percepção visual. Gestalt, em alemão, significa figura, configuração, forma. Para os psicólogos gestaltistas, os fenômenos percebidos visualmente são indissociáveis do conjunto em que se inserem. A nossa percepção está intrinsecamente ligada aos fenômenos percebidos e à nossa estrutura mental. Isso explicaria, por exemplo, nossa capacidade/tendência de agrupar os elementos presentes no vídeo com o Grupo Piloboulos (linhas, relevos, depressões, luz, sombra e movimento), organizando-os mentalmente numa imagem que seja familiar, que tenha significado para nós. O impacto da Psicologia da Gestalt no mundo científico foi forte o bastante para que hipóteses levantadas por essa abordagem, em trabalhos das décadas de 1930/1940, são estudadas pelos cientistas da visão ainda ahoje.

Dentre as hipóteses levantadas pela Gestalt, as Leis de Organização são as mais estudadas para se tentar compreender como as pessoas percebem componentes visuais como padrões organizados ou conjuntos, ao invés de suas partes componentes. Por exemplo, essas leis podem nos ajudar a entender o que vemos no vídeo do Grupo Piloboulos.  De forma resumida, as Leis de Organização da Gestalt são:

Proximidade
Os objetos mais próximos entre si são percebidos como grupos independentes dos mais distantes.

Similaridade ou Semelhança
Objetos similares em forma, tamanho ou cor são mais facilmente interpretados como um grupo.

Fechamento
Nossos cérebros adicionam componentes que faltam para interpretar uma figura parcial como um todo.

Simetria
Elementos simétricos são mais facilmente agrupados em conjuntos que os não simétricos.

Destino comum
Itens movendo-se no mesmo sentido são mais facilmente agrupados entre si.

Continuidade
Uma vez que um padrão é formado, é mais provável que ele se mantenha, mesmo que seus componentes sejam redistribuídos.

Interessante frisar que estudos experimentais demonstraram que certas diferenças individuais podem afetar a percepção visual. Assim, diferentes níveis de acuidade visual e habilidade espacial podem influenciar a interpretação das coisas vistas. O mesmo ocorre em relação a fatores como crenças, atitudes, valores, personalidade, atividade profissional, estilos cognitivos, idade, sexo, motivações, etc.

Veja mais vídeos do Grupo Pilobolus AQUI

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Ícaro e a Embriaguez dos Sentidos

Junho 1, 2009 · Deixe um comentário

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Toda estória tem um começo, a de Ícaro não é diferente. Ícaro era filho de Dédalo, o melhor e mais conhecido dos artesãos e inventores da mitologia grega. Qualquer um que desejasse algo belo, funcional, engenhoso que fosse, deveria buscar as habilidades de Dédalo.

Dédalo, numa época de sua vida, tomou como aprendiz seu sobrinho, Talos. Talos revelou um assombroso talento que, aparentemente, poderia suplantar o de Dédalo. Diz o mito que foi Talos quem inventou o primeiro serrote, a roda do oleiro e imaginou o primeiro par de compassos. Não tardou para que a reputação do jovem aprendiz ultrapassasse os limites da oficina de seu mestre. O sucesso de Talos, a procura crescente por seus serviços, começou a corroer de ciúmes o pobre Dédalo. A insegurança do mestre artesão, sua incapacidade de reconhecer e aceitar a concorrência do sobrinho, levou-o a uma decisão egoísta e cruel, atrair o aprendiz até o até o topo do templo de Atena e empurrá-lo para a morte.

Dédalo tinha um filho, Ícaro, com quem foi banido da cidade de Atenas como punição para o crime contra Talos. O rei de Creta, Minos, apreciava a arte de Dédalo e, por isso, acolheu pai e filho em sua ilha. Antes de tornar-se rei de Creta, Minos disputou o trono com dois irmãos seus, e a incerteza da vitória atormentava-lhe os dias. Foi quando ele teve a idéia de recorrer a Netuno, o deus dos mares. Minos pediu a Netuno que enviasse um sinal confirmando o seu reinado sobre Creta. Netuno, então, fez um trato com o futuro rei: mandaria-lhe como sinal um esplendoroso touro branco que emergiria das ondas, em troca Minos sacrificaria o magnífico touro em honra ao próprio deus Netuno. Acordo feito…e não cumprido. Ao invés de sacrificar o touro sagrado enviado por Netuno, Minos sacrificou um touro comum. É claro que ele não contava com o fato de que a percepção divina era muito mais apurada do que a humana e, é lógico, Netuno logo viu que fora enganado.

Netuno queria vingança, e a vaidade de Dédalo serviu como uma luva para o propósito do deus. A mulher de Minos, Pasífae, foi enfeitiçada por Afrodite a pedido de Netuno. Tomada pela força afrodisíaca da paixão, Pasífae enamorou-se do touro branco de Netuno. Desesperada para concretizar o seu desejo, a rainha recorreu a Dédalo e pediu-lhe que ele fizesse uma vaca oca de madeira, na qual ela pudesse entrar e ser possuída pelo touro sagrado. Dédalo, envaidecido pela confiança que a rainha depositara em seu talento de artífice, aceitou a tarefa. Da cópula entre Pasífae e o touro, nasceu o Minotauro. Quando o filho de Pasífae nasceu, Minos – não sabendo da trama entre sua esposa e Dédalo – pediu ao inventor que construísse uma prisão diferente de todas as outras, um esconderijo para a própria vergonha,  uma casa para o Minotauro.

Dédalo, com a ajuda de seu filho Ícaro, erigiu um intrincado vai e vem de corredores que se entrelaçavam entre paredes intransponíveis, um labirinto à prova de fugas! O Labirinto de Cnossos. Para saciar a fome do Minotauro, o rei Minos mandava capturar jovens atenienses, sete moças e sete rapazes a cada sete anos, que eram servidos como refeição à besta meio homem-meio touro. Porque atenienses? Por vingança, já que o único filho de Minos, Androgeu, havia sido morto pelos atenienses. Com o tempo, a população de Atenas começou a indignar-se com o tributo. Na terceira vez de pagar a “dívida” a Minos, os atenienses enviaram seu mais valoroso guerreiro, Teseu. O oráculo de Delfos avisou a Teseu que ele só conseguiria matar o Minotauro se o amor lhe servisse de guia. E assim foi. Ariadne, filha do rei Minos, foi seduzida por Teseu, apaixonada ela instruiu Teseu a levar com ele um novelo de lã. À medida que Teseu adentrava a morada do Minotauro, ele ia desenrolando o fio do novelo, marcando o caminho percorrido, marcação que poderia reconduzi-lo à entrada/saída do labirinto.

Quando Teseu matou o Minotauro e conseguiu escapar do Labirinto – que supostamente era à prova de fugas –,  a fúria do rei Minos voltou-se para Dédalo, o construtor. O fato é que era realmente impossível escapar do labirinto, mas o próprio Dédalo havia sugerido a solução do novelo para a apaixonada Ariadne. Ao que parece, Dédalo não conseguia resistir à tentação de mostrar-se engenhoso, inteligente e tudo o mais. A vaidade, expressa na necessidade de reconhecimento, era o ponto fraco de Dédalo, o que sempre o levava a se corromper. Foi assim, como punição  por Minos, que Dédalo e seu jovem filho, Ícaro, se tornaram prisioneiros do labirinto que haviam construído.

No labirinto, Ícaro passava os dias se cuidando, afinal a vaidade era sua herança paterna. Dédalo, por sua vez, estudava, pensava, imaginava uma forma de escapar de Creta. Finalmente, Dédalo concebeu um plano audacioso. Ele construiu dois pares de asas, tecendo as penas e juntando-as com cera. Quando as asas estavam prontas, levou Ícaro para um canto, instruiu-o no uso do artefato e alertou-o sobre os perigos de voar próximo demais ao sol ou ao mar. Um curso médio, o equilíbrio entre o alto e o baixo, essa seria a rota segura para um vôo bem sucedido.

De um rochedo bem alto, pai e filho alçaram vôo. Por muitos quilômetros o jovem Ícaro seguiu seu pai, ateve-se à percepção da jornada que lhe fora passada. Mas Ícaro tinha seus próprios sonhos, acalentava os anseios próprios da juventude e seus sentidos ansiavam por mais de tudo aquilo que ele acabara de descobrir voando. Sentindo-se livre, Ícaro entregou-se ao prazer dos sentidos, embriagou-se de sensações: do toque do vento nos seus cabelos dourados, da visão do azul do mar confundindo-se com o do céu no horizonte, do som do rufar de suas asas, do movimento ascendente do seu corpo, do calor do sol na sua pele…

…O mesmo sol que aquecia a experiência sensorial do jovem Ícaro, acabou por derreter a cera de suas asas, lançando-o no mar. Na água, uma suave ondulação agrupava um punhado de penas, que flutuavam, sinalizando o ponto onde Ícaro caíra. Essa foi a última lembrança que Dédalo levou do seu filho.

Como Ícaro, todos aqueles que desejam a superação correrão riscos. Arriscar-se é um movimento que, do ponto de vista psicológico, assinala o desejo de expandir a própria percepção do mundo e das coisas. Aqueles que buscam explorar os limites dos sentidos, que buscam ver, ouvir, sentir, mais do que os outros, pagarão um preço, sempre! Se o preço será compensatório ou não, depende do quanto o risco foi calculado. A impetuosidade de Ícaro levou-o aonde ninguém mais havia ido, mas a sua imprudência limitou a experiência, minimizando as chances de aproveitar o vôo por mais tempo e de aperfeiçoá-lo. O segredo do sucesso dos grandes criadores – seja um cientista ou um artista, por exemplo – parece residir, em grande parte, na capacidade de correr riscos calculadamente.

A criatividade para efetivar-se sempre demandará do criador a capacidade de viabilizar aquilo que pensa e sente. O vislumbre, por mais arrojado e original que seja, não é suficiente para dar corpo a um projeto. Desenvolver condições para a experimentação, as tentativas, os erros e os acertos, é parte crucial de qualquer aventura criativa bem sucedida. Ícaro, como muitos de nós, deixou-se seduzir pela possibilidade de algo que ele não conhecia inteiramente. Voar, poderia ser a experiência mais significativa da vida de Ícaro caso ele tivesse sobrevivido para contá-la. A vaidade, a imaturidade e a arrogância de Ícaro não permitiram que ele aceitasse aquela primeira oportunidade de vôo como uma porta para algo que poderia ter sido muito maior.

Algumas vezes, porém, alguns incautos ícaros são necessários para nos mostrar a necessidade de limites, sejam limites internos que devemos aprender a nos impor, sejam limites externos que precisamos aprender a respeitar. Afinal, a criação parece iniciar-se no desejo de superação, desejo esse que só é possível quando reconhecemos que há um limite a ser superado.

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