O Mundo dos Sentidos

O Cérebro e o Número de Dunbar: Os Sentidos da Amizade Moram no Abraço!

janeiro 12, 2010 · 3 Comentários

Robin Dunbar, um antropólogo e psicólogo evolucionista da Universidade de Liverpool, na Inglaterra, defende a idéia de que os contatos sociais são parte essencial da história evolutiva do nosso cérebro. Tudo começou quando ele, estudando macacos, percebeu que há uma relação significativa entre o tamanho do cérebro e o número de integrantes do grupo. Ou seja, um grupo numeroso de macacos costuma ser formado por indivíduos com córtex mais volumoso.

É claro que Dunbar não resistiu à tentação de extrapolar essa descoberta para a própria espécie – o que o levou a elaborar uma hipótese muito interessante: a de que a evolução do cérebro humano seria dependente do desenvolvimento de estruturas sociais. “Social Brain” é como a hipótese de Dunbar é conhecida. Mas qual seria a explicação para isso? Simples e, aparentemente, bem lógica. Quanto mais indivíduos num grupo, mais informações há para serem processadas, pois, há um grande volume de pensamentos, idéias, sentimentos, ações, etc., que precisam ser identificados, classificados e assimilados para que o convívio social possa se efetivar.

O aspecto curioso disso, segundo Dunbar, é que como haveria limite na capacidade de processamento cerebral, isso restringiria a quantidade de indivíduos com os quais conseguimos nos relacionar. Bom, pelo menos quando relacionar-se diz respeito ao número de pessoas que podemos considerar como sendo parte do nosso círculo social, que seria em torno de 150 indivíduos! E mais, obviamente – ao contrário do que o Orkut e o Twitter fazem parecer – todos esses 150 integrantes do círculo social de uma pessoa não poderiam ser chamados exatamente de “amigos”.

Onde estão os amigos, então? Robin Dunbar elaborou uma forma de classificar os 150 sujeitos que formam um círculo social. Tal classificação é feita por um sistema de anéis concêntricos. No centro está você, ao seu redor vão se criando anéis(círculos), de dentro para fora, formados por pessoas com as quais você se relaciona. Quanto mais distante uma pessoa está do centro – de você – mais fraco é o vínculo entre vocês. O primeiro anel à sua volta é o das pessoas mais íntimas; o que vem depois é o dos conhecidos como colegas de trabalho, escola, etc.; no círculo seguinte encontram-se contatos mais superficiais como vizinhos que se vêm de vez em quando, e assim sucessivamente até agrupar aproximadamente 150 pessoas em torno de você.

Estudos antropológicos oferecem algum suporte para a hipótese de Robin Dunbar. Agrupamentos humanos em torno de 150 pessoas podem ser encontrados em sociedades indígenas formadas por caçadores e coletores. Similarmente, na psicologia das organizações sabe-se que grupos de trabalho com mais de 150 indivíduos tendem a apresentar produtividade significativamente menor. O interessante é que, até que se atinja o número de 150 indivíduos num círculo social, há um aumento quase constante de pessoas de um anel para o outro, em torno de três vezes. Assim, o anel mais próximo de você tende a ser formado por 3 a 5 pessoas, o seguinte por 10 a 15, depois 30 a 45…

As 3/5 primeiras pessoas do anel mais próximo do centro seriam os nossos amigos, de verdade! É claro que você pode considerar os outros 10/15 do próximo anel como seus amigos também, e até mesmo as outras 3 dezenas de pessoas do anel seguinte podem personificar a sua idéia de amizade! O fato é que dificilmente você conseguirá ter um alto nível de intimidade, confiança, cumplicidade e afinidade com 35 pessoas. O que pesquisadores como Robin Dunbar demonstram com seus estudos é que: o modesto número de amigos do primeiro anel é o que abriga as pessoas com quem sentimos que podemos contar.

Esses amigos de verdade, com quem compartilhamos nossos valores e impressões mais íntimas, são os mesmos que aparecem nas pesquisas sobre bem-estar como fundamentais para nossa saúde física e mental. Estudos recentes sobre envelhecimento, bem-estar subjetivo, qualidade de vida, felicidade, etc., têm descoberto a importância da amizade em nossa vida. Em 2009 foram publicados os resultados de um estudo australiano, feito ao longo de 10 anos, que constatou que ter amigos aumentava a expectativa de vida. O benefício propiciado pela amizade foi maior do que o decorrente de contato com familiares. Em 2008, pesquisadores da Universidade Harvard constataram haver um forte correlação entre laços sociais fortes e melhor saúde cerebral em pessoas idosas.

Mas, porque o benefício psicológico do vínculo social é mais consistente quando envolve os amigos? Pessoas da família não ofereceriam o mesmo tipo de apoio e suporte íntimo que os amigos oferecem? A princípio, não! O vínculo familiar, e o apoio e o suporte advindos deste, pode estar muito mais relacionado a uma obrigação sociocultural do que a uma real afinidade entre as pessoas. Na amizade, nós escolhemos com quem queremos nos relacionar, e fazemos isso baseados apenas no que sentimos. Contudo, não se pode garantir que os resultados obtidos nessas pesquisas seriam os mesmos em outra época. Do ponto de vista psicológico, hoje, na sociedade ocidental, há uma desestruturação dos laços familiares e, de certa forma, a família já não funciona mais como o referencial afetivo que foi em outras épocas. Para muitas pessoas, em nosso tempo, os amigos constituem as referências mais constantes de afeto e suporte social.

Um adendo: particularmente, não conheço nenhum estudo sobre a importância da amizade em sociedades onde a família ainda é o pilar da vida social e afetiva, como ocorre na Índia, por exemplo. Isso, sim, seria interessante!

O fato é que as pessoas do anel mais interno do círculo social, aquelas que estão mais próximas de nós, são as que fazem maior diferença para o nosso bem-estar. O contato regular com pessoas que nos valorizam, que respeitam nossa forma de pensar, sentir e agir, e com as quais nos sentimos confortáveis para nos expressar, tem efeitos muito positivos sobre nossas emoções e pensamentos. Redução do stress, melhora da auto-estima e do humor, diversão, acolhimento e compreensão são apenas alguns dos benefícios da amizade que melhoram a saúde física e mental e até prolongam a vida.

Resumindo: amizade que é amizade tem o suporte dos sentidos! Amigo de verdade tem olhos para ver, nariz para cheirar, mãos para tocar, ouvidos para ouvir…”Amigo virtual” pode até ser bom para “enganar” a solidão, pode mesmo até ajudar a expandir o círculo social, contribuindo com mais informações para o processamento cerebral…Mas amigo que é só virtual dificilmente poderá contribuir para que o cérebro libere muitos dos neurotransmissores que nos ajudam a nos sentirmos mais relaxados, alegres e felizes. Afinal, a ocitocina, um hormônio muito associado ao vínculo afetivo, tem no contato físico um dos seus principais gatilhos. Não é a toa que a ocitocina é carinhosamente chamada pelos cientistas de “hormônio do abraço”!

Outro adendo: 150, o Número de Dunbar, resume o número de indivíduos com os quais podemos estabelecer uma relação, em função de limitações na própria capacidade do cérebro humano de lidar com a complexidade do volume de informações a serem processadas no contexto das relações sociais. O uso consistente de novas tecnologias levou muita gente a acreditar que as novas formas de relacionamento virtual – por meio das redes sociais, por exemplo – possibilitaria a ruptura da barreira dos 150, e, assim, conseguiríamos gerenciar um número muito maior de contatos. Ledo engano! Uma pesquisa feita na rede social Facebook, pelo sociólogo Cameron Marlow, demonstrou que o usuário médio consegue estabelecer uma relação estável com no máximo 120 contatos dentro do site.

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A Árvore e os Sentidos do Natal

dezembro 15, 2009 · 1 Comentário

Se parássemos um só minuto e prestássemos atenção à flexa inexorável do tempo veríamos que, independentemente da nossa vontade, as cidades se transformam, as árvores dão lugar a prédios e ruas, os amigos se mudam, as crianças crescem, nós envelhecemos…a vida segue seu curso. A vida se renova, mas esquecemos disso.

Desde tempos muito remotos, nossos antepassados celebravam a dinâmica da vida comemorando a alternância do tempo. À semeadura e à colheita, à sobrevivência, enfim, se associava a mudança das estações, porque dela dependiam os recursos que nossa espécie precisava para nutrir os sentidos. Comer, abrigar-se, curar os males do corpo, reproduzir…a essência da vida humana dependia no passado, como hoje, do uso dos sentidos: as ferramentas que utilizamos para mapear o mundo e fazer escolhas.

A bússola da realidade vivida pelos nossos ancestrais – a que eles utilizavam para traçar o mapa do mundo conhecido – era a alternância temporal, a variação de luz e temperatura que caracteriza as estações do ano. Por meio da visão, do olfato, do tato…nossos ancestrais podiam identificar o inverno, o verão…podiam organizar-se para enfrentar cada época e cada necessidade: guardar alimento, preparar vestimentas, arranjar abrigo, sair, caçar, exibir-se, resguardar-se…Nesse mundo, guiado inteiramente pelos sentidos, um elemento tornou-se símbolo da passagem das estações: a árvore!

A árvore sempre foi um símbolo de fertilidade, um sinalizador desse fluir temporal, perfeitamente ajustado ao ritmo cíclico da natureza. Com sua capacidade de sobreviver à alternância das estações, ao frio ou ao calor, perdendo folhas, renovando-se, florescendo e dando frutos ciclicamente, a árvore se adapta e oferece à humanidade recursos de sobrevivência em todas as épocas. Madeira para o fogo e para as construções; seiva, raízes, frutos, casca e folhas para o alimento, a medicação e as vestimentas; flores e sementes para enfeitar, perfumar… Numa só árvore pode haver quase tudo o que precisamos para viver! Por isso, é praticamente universal na psicologia humana a associação simbólica entre a árvore e o ciclo vital.

A tamareira, por exemplo, era considerada a árvore da vida pelos egípicios que a enfeitavam com doces e frutas para as crianças. Na China, o pinheiro simboliza a longa vida, e no Japão a imortalidade. Na Antiga Grécia as árvores eram utilizadas para reverenciar os deuses. Tanto na mitologia grega quanto na religião judaica, e, também, na tradição budista, as árvores representam as possibilidades de evolução e elevação do homem, e são consideradas intermediárias entre o céu e a terra.

Na Roma Antiga as pessoas penduravam máscaras de Dionísio – o deus do vinho que resuscitara da morte – em pinheiros para comemorar a “Saturnália”. Os romanos acreditavam que as divindades do mundo subterrâneo saíam em cortejo por todo o período invernal, quando a terra repousava e era incultivável por causa das condições climáticas. Durante a “Saturnália”, acreditavam eles, tais divindades poderiam ser aplacadas com a oferta de presentes e de festas em sua honra. Dessa forma, elas retornariam ao além, onde favoreceriam as colheitas da próxima estação.

O frio também ajudou a construir o simbolismo de uma outra árvore no imaginário humano, o carvalho. Ele foi, em muitos casos, considerado a mais poderosa das árvores. No inverno, quando suas folhas caíam, os povos pré-cristãos do ocidente europeu, especialmente os germânicos, costumavam colocar diferentes enfeites nele para atrair o espírito da natureza, que se pensava ter fugido em decorrência da infertilidade da terra invernal. Dentre esses enfeites haviam pequenos archotes de fogo, já que a luz – a vida – poderia espantar a escuridão – a morte – representada pelos meses sem sol.

Nossa árvore de Natal não é diferente. Para os recém-convertidos cristãos da velha Europa o pinheiro sinalizava a capacidade da natureza de resistir às intempéries, a força desafiadora da vida frente às dificuldades da existência. No auge do inverno, sob a neve, o pinheiro é a única árvore que se mantém verde! É por isso que escolheram o pinheiro para celebrar o nascimento daquele que os seguidores do Cristo, no mundo inteiro, consideram a renovação da vida e a luz do mundo.

Pense sobre todas essas coisas quando celebrar o seu Natal. Pense que, mesmo as religiões e os povos sendo diferentes, toda a humanidade ao longo de sua história buscou ardentemente cultuar a plenitude da existência, aceitando suas alternâncias e procurando entender o significado do fluxo temporal que nos ensina a fluir com a vida. Talvez, por isso, quando corremos demais nos esquecemos de viver.

A pressa embota os sentidos, nos impede de aproveitar os estímulos do ambiente adequadamente, sobrecarrega nosso cérebro e mente com informações desnecessárias. Quando não dispendemos tempo suficiente para degustar, cheirar, tocar, olhar, mover, ouvir…nos tornamos um pouco menos humanos. Em nossa época, em muitos momentos, corremos o risco de nos automatizarmos, de nos assemelharmos às máquinas, fazendo e cumprindo tarefas sem verdadeiramente atribuir-lhes um significado emocional. Situações como as que tipicamente ocorrem no fim de ano – encontros sociais obrigatórios, comida e bebida em exagero, compras compulsórias, etc. – imprimem um ritmo acelerado à vida. Tudo isso pode nos cegar! Nos cegar para o verdadeiro sentido dos sentidos que é o de usufruir do presente impagável que a natureza nos deu…ver, ouvir, cheirar, tocar, mover-se, viver…

…Neste Natal, corra menos, dimínua o ritmo, contemple! Seja você mesmo a árvore da sua vida, enraíze-se no solo daquilo que pode nutrir seu corpo e mente, aguce os sentidos e  utilize-os para fazer as escolhas que  o ajudarão a sobreviver às intempéries. Procure no seu dia-a-dia por onde anda a luz da sua vida, ao encontrá-la alimente-se dela para que te ilumine e aqueça nos dias de escuridão e frio, renove-se!

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Respire!

novembro 11, 2009 · Deixe um comentário

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O ato de respirar é essencial para o transporte de oxigênio e nutrientes em todo o corpo, sendo isso feito pela corrente sanguínea. O que garante a estimulação elétrica das células corporais e o adequado funcionamento do organismo. Mais, respirar também atua no controle do fluxo do fluido linfático que contém os glóbulos brancos do sangue que protegem o corpo.

Assim, respirar contribui para uma corrente sangüínea saudável e sistemas linfático e imunológico eficientes. Condições de saúde que fortalecem mente e corpo. É por isso que uma má respiração pode estar associada à tensão muscular, stress, ansiedade e mesmo depressão. Todos nascemos sabendo respirar adequadamente, então porque desaprendemos a fazê-lo?

A respiração reflete, em grande parte, nossas emoções, podendo ser influenciada consciente ou inconscientemente por elas. Sentir-se inseguro ou reprimido altera negativamente a forma de respirar e a postura corporal. Em situações de excitação respiramos mais rápido, sob o medo a respiração pode tornar-se insuficiente. Em ambos os casos, ocorre tensão muscular.

Um corpo tenso respira mal e potencializa as sensações desagradáveis. É importante ficar atento às alterações físicas e emocionais que geram sofrimento. O ato de respirar pode ser uma ferramenta muito útil na busca do bem-estar físico e mental. Quem respira mais e melhor, ajuda a criar um ciclo virtuoso que oxigena as células do corpo e nutre as emoções positivas.

Escrito originalmente para o Caderno Espaço Vida/Unimed-RS, em Outubro de 2009

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O Beijo, os Sentidos, o Cérebro e o Amor Eterno

setembro 23, 2009 · 2 Comentários

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O beijo nos parece uma forma de carinho corriqueira e universal. Ele aproxima pessoas estranhas, exprime o afeto de familiares, personifica identidades culturais, estabelece o destino de um comparsa no crime organizado… Pela diversidade dos usos atribuídos ao beijo, tendemos a vê-lo como parte natural da vida de todos os seres humanos, em todos os tempos. Mas, afinal, numa perspectiva objetiva, qual seria a função do beijo em nossas vidas?…

…Ao que parece, segundo asseguram alguns cientistas, o beijo define a qualidade dos econtros erótico-afetivos. Mas não só isso! O beijo parece ser um alimento para o afeto, um sinalizador do quanto ele pode nutrir uma relação a dois. A origem para esse poder afetivo do beijo estaria no próprio ato de alimentar o corpo.

Segundo o antropólogo inglês Desmond Morris, o beijo teria se originado na relação mãe-filho. Para Morris, o processo de adaptação da criança à alimentação sólida – após o período de amamentação – seria auxiliado pela mãe., que depois de mastigar o alimento que seria dado ao filho, o alimentaria passando a comida da sua boca para a boca da criança. Essa forma de alimentar os filhotes pode ser visto em outros animais como lobos e pássaros. A favor de Morris tem o fato de que muitas tribos, em várias partes do mundo, apresentam, hoje, o costume das mães alimentarem seus filhos pequenos no modelo boca-a-boca.

Do ponto de vista psicológico, esse contato das bocas – mãe/filho – associado à alimentação produziria a mesma sensação de conforto, segurança, prazer e satisfação que a criança obtém ao sugar o seio materno. Ou seja, talvez por isso, o ato de beijar na boca nos parece uma confirmação de intimidade entre duas pessoas, uma forma de nos certificarmos se somos aceitos ou não, desejados ou não. Similarmente, se desejamos ou não o outro a quem beijamos.

Ao beijarmos alguém, nossos sentidos são inundados por várias informações fisiológicas que sinalizam para o nosso cérebro o quanto desejamos alguém. Temperatura, textura, pressão, cheiro, gosto, sons, posicionamento do corpo no espaço…de diferentes maneiras, um simples beijo aciona mecanismos neurológicos sofisticados, sejam estes conscientes ou inconscientes. Tais mecanismos permitem ao nosso cérebro avaliar as informações sensoriais desencadeadas pelo contato com o parceiro(a), o que influenciará nossa percepção subjetiva do quanto aquele (a) que beijamos é compatível geneticamente conosco.

A bagagem genética por trás do beijo definirá o sucesso de um econtro, e mesmo o de uma relação, é o que indica  resultados de experimentos científicos recentes. Um beijo aciona células da língua e de outras regiões da boca, cujas mensagens enviadas ao cérebro e ao corpo provocam emoções e reações físicas intensas. Isso ocorre porque os lábios humanos possuem a camada mais fina de pele do corpo, sendo também uma das áreas corporais com maiores concentrações de receptores e transmissores de informações fornecidas pelos sentidos. Quase 50% dos nervos cranianos envolvidos na função cerebral são ativados quando beijamos. Parcela significativa da informação sensorial transmitida por esses nervos chega ao córtex somatossensorial – área da superfície cerebral responsável pela leitura das informações vindas do corpo.

O corpo envolvido na ação de beijar desencadeia a regulação de um coquetel de substâncias químicas como o cortisol (associado ao stress) e a oxitocina (associada às relações sociais e à estimulação sexual). Alguns experimentos, por exemplo, mostraram que os níveis de oxitocina aumentam no organismo masculino depois de beijar. Ao contrário, o beijo faz cair os níveis de cortisol para ambos os sexos, indicando que o beijo pode reduzir o stress. Uma explicação para isso seria o fato de que o beijo está, evolutivamente e psicologicamente, ligado à afetividade. Assim, beijar aumenta a produção de neurotransmissores envolvidos nas sensações de prazer e euforia, e na motivação para a criação de vínculos.

O poder do beijo de gerar prazer e euforia foi demonstrado pela antropóloga Helen Fisher, que se dedica ao estudo dos efeitos da paixão e do amor no cérebro humano. Por meio de tomografia, Fisher e seus colaboradores identificaram uma atividade incomum em duas regiões cerebrais de voluntários, enquanto eles observavam fotos daqueles por quem estavam apaixonados. As regiões do cérebro, em questão, são a àrea tegumentar ventral direita e o núcleo caudado direito, que estão associadas ao prazer, à motivação e à recompensa. Drogas como a cocaína também ativam essas áreas, promovendo a liberação do neurotransmissor dopamina.

Logo, poderíamos pensar na paixão como uma espécie de droga que gera prazer e euforia. O beijo, como expressão primária da paixão, seria responsável por desencadear, fisiológica e psicologicamente, o processo excitatório dessas regiões cerebrais. Fisiologicmente, o beijo aumenta a pulsação e a pressão sanguínea, dilata as pupilas e provoca um aprofundamento do ritmo respiratório. Essas reações favorecem o deslocamento do foco de pensamento das reações racionais para as emocionais. Ou seja, psicologiamente, beijar minimiza as defesas emocionais que nos tornam mais cautelosos e inibidos. Quando nos entregamos num beijo, nos tornamos menos racionais e, por isso mesmo, mais suscetíveis aos encantos do outro.

O poder de encantamento de um beijo, ao contrário do que alguns possam pensar, não depende de técnicas mas da compatibilidade genética dos parceiros. Talvez, por isso, quem é bom beijador para uns pode não ser para outros. Do ponto de vista evolutivo, o beijo seria uma estratégia de acasalamento que ajuda a valiar um possível parceiro sexual e, quem sabe, futuro pai/mãe dos filhos que se pretende ter. O beijo, portanto, seria uma espécie de termômetro da relação, quanto mais entusiasmado o beijo, mais chances teria a relação de ser satisfatória. Tanto é que a àrea tegmentar ventral – aquela que “acende” quando sentimos prazer e que pode ser ativada quando beijamos – continua se destacando nas imagens do cérebro de casais que há muito estão juntos e satisfeitos com suas relações.

O segredo dessas relações de amor eterno poderia, segundo alguns cientistas, residir na qualidade do beijo percebida pelos parceiros. Se um beijo arrepia os pêlos do corpo, retira as amarras da inibição e destranca o cadeado do coração, é porque genes compatíveis entraram em ação. A compatibilidade genética de um casal parece ser determinada pela análise de genes chamados MHC que, a princípio, parecem influenciar o odor e a saliva. Esses genes controlam como o sistema de defesa do organismo reconhece e combate elementos nocivos como fungos e bactérias. Se esses genes forem muito parecidos nos parceiros, há incompatibilidade genética. Isso mesmo! Para garantir mais chances de sobrevivência dos filhotes gerados por um casal, a idéia é que haja diversidade nos genes MHC. Ou seja, quanto mais, e mais diversificados, forem os genes de defesa a serem passados para o hedeiro, mais chances ele tem de ser resistente à várias doenças.

A lógica da evolução é: quanto mais diferente geneticamente o casal, mais provável de os parceiros se reconhecerem como iguais!

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